Bruno Frederico Müller

Corrente

Abolicionista

Sobre

bruno_frederico_mullerBacharel em História pelo Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense, doutorando em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tradutor de textos acadêmicos (inglês-português/português-inglês).

Vegano e ativista independente desde 2007, ministra palestras e faz ações de conscientização em prol dos direitos animais e veganismo. Pertence a vertente abolicionista, acredita que a base do veganismo é a ética.

Membro fundador da Sociedade Vegana. Colunista da Agência Nacional de Direitos Animais. Co-editor e colaborador da Revista Eletrônica de Direitos Animais Pensata Animal.

Confira uma entrevista com Bruno F. Müller: [link]

CNPq: Perfil

Wikipedia: –

Obs.: –

Obra

O Espelho Partido, 2015, editora Multifoco.

Blogs & Redes Sociais

blog: Seres Livres

facebook: Perfil

Contato

bfmuller@gmail.com

Citações

Alegar que a carne deve ser respeitada por ser cultural equivale a dizer que devemos respeitar atrocidades do passado e do presente. Pena de morte, tortura, mutilação genital (masculina e feminina) são características presentes ainda em muitas culturas. Isso sem mencionar questões como a opressão feminina, o racismo, a homofobia, a intolerância religiosa, que com variações, são provavelmente universais. Seria errado condená-las como bárbaras por acontecerem fora do meu círculo social?

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

É comodismo e covardia apelar para o relativismo diante de violações flagrantes de interesses que deveriam ser percebidos como direitos individuais básicos – liberdade, vida, integridade – que nós conhecemos como “direitos morais”. Dor é dor, não é algo relativizável. Quem o faz, geralmente faz com pessoas distantes, no espaço e/ou no tempo, o que nos desobriga do exercício da empatia. É muito fácil fechar os olhos para uma injustiça praticada longe de nós, sem sequer sentir um pouco de culpa pela nossa indiferença.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Visões divergentes sempre existiram e existirão. E nesse universo de inúmeras possibilidades, é o ponto de vista que demonstra maior empatia pela vida, dignidade, liberdade do outro que deve ser defendido. Nosso compromisso, portanto, não deve ser nunca com a absolutização da cultura – que leva à reificação da cultura dominante e, portanto, a cristalização das injustiças e desigualdades da sociedade; nem com qualquer cultura que justifica a opressão. Nosso compromisso maior deve ser com aqueles oprimidos, violentados, vulneráveis. O compromisso com a liberdade e justiça para quem sofre.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Quando uma injustiça acontece sob nossos olhos, devemos intervir. Mas se ela acontece do outro lado do planeta, promovida por pessoas com outros valores e outro idioma, esse tipo de ação direta se mostra na maioria das vezes inadequado, ineficaz, perigoso. Mas isso não é uma licença para silenciar: os indivíduos têm sua voz, seu poder pessoal de boicotar, de dialogar, de irradiar, para combater injustiças cometidas por governos, corporações ou indivíduos; e pressionar seus governos para igualmente denunciar e boicotar as injustiças, aplicar sanções, fazer pressão.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

A melhor forma para se encarar as injustiças e as flagrantes violações de direitos morais individuais não é nem o silêncio nem a imposição, mas o diálogo. O silêncio generalizado sempre favorece ao opressor. Especialmente no caso de diferentes culturas. O diálogo intercultural permite explorar pontos de contato, apontar falhas e incoerências mútuas. Deve-se buscar a cooperação entre indivíduos cujos pensamentos se completam, independente das raízes culturais e fronteiras nacionais. Por isso os defensores dos direitos individuais básicos de humanos e animais não-humanos devem estabelecer canais de diálogo com os que lutam contra a opressão nas diferentes partes do mundo.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Assim como todo ser humano é passível de sofrimento, ele é passível de fazer escolhas morais para se abster de promover, ativa e conscientemente, o sofrimento alheio. É a esse bom-senso que os veganos apelam quando defendem que os animais sejam reconhecidos como indivíduos portadores de direitos, cuja vida, liberdade e integridades devem ser respeitadas.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

É possível viver bem e com saúde sem explorar animais. Portanto, não hesito em afirmar que viver de outra forma é pura e simplesmente errado. Todo ser que tem a capacidade de sofrer e sentir prazer deve ter sua dignidade respeitada. Os valores da vida, da liberdade e da integridade não podem ser menos importantes que uma tradição arraigada.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Existe um elemento universalista na defesa do veganismo, da mesma forma que existe um elemento universalista na condenação unânime da escravidão humana. A escravidão é eticamente condenável porque não garante a interesses semelhantes – o interesse de todo ser humano à liberdade – o mesmo respeito e proteção. Tal atitude é injustificável do ponto de vista racional, pois não há como afirmar que um interesse comum a todos os seres humanos – a liberdade – só pode ser assegurado a uma parte deles. O mesmo é verdade para os animais não-humanos, que como seres sencientes também têm esse mesmo interesse.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

É muito fácil constatar que animais são igualmente seres dotados de senciência (ou seja, capacidade de sentir dor e prazer), e que, portanto, têm interesse em viver e, em vida, perseguir seus próprios objetivos, sem interferência alheia. Essa verdade, embora alguns ainda sejam ignorantes ou mal-intencionados o suficiente para questionar, já é há muitos séculos apontada por filósofos, biólogos e também por leigos.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Está claro que todo animal dotado de sistema nervoso central é, por correlação óbvia, dotado de senciência. E que se é errado impor sofrimento, privação de liberdade e morte a um ser humano, isso se deve à sua capacidade de sofrer, não à sua capacidade cognitiva. Fosse de outro modo, não seria errado torturar e matar bebês e pessoas com a capacidade cognitiva afetada, permanente ou temporariamente – pessoas com algum tipo de doença neurológica, congênita, genética ou adquirida com o avançar da idade, comatosos. Assim sendo, também por correlação óbvia, é igualmente errado impor sofrimento, privação de liberdade e morte a um animal não-humano. E qualquer ator moral deve primar pela coerência e racionalidade em suas atitudes, sob pena de estar condenando a si mesmo a ser vítima de duplos critérios que violem seus interesses básicos.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Quando uma determinada prática avilta a natureza – a dignidade – de um ser senciente sem uma justificativa razoável, podemos sem maiores dúvidas afirmar que esta é uma prática condenável. E só existem duas justificativas razoáveis: a primeira, a preservação de um interesse de outro ser que seja concorrente, mas de natureza semelhante, interesse o qual só pode ser atendido violando o interesse de primeiro ser. O exemplo clássico é o homicídio em legítima defesa. A outra é a preservação de um interesse maior do mesmo ser que sofre a violação. O exemplo clássico é a amputação de um membro para evitar a morte do indivíduo.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Ao contrário do que afirmam os críticos do veganismo, o estado de necessidade não questiona essa proposição da simetria entre natureza e universalidade: o estado de necessidade É o estado de natureza. Se um homem faminto não tem outra opção senão alimentar-se de uma galinha (suponha-se, os dois perdidos no deserto), a violação dos interesses autônomos da galinha são necessários à preservação da vida do ser humano, que é também um interesse autônomo – e legítimo – deste. Embora uma exceção, esta exceção afirma uma ruptura universalmente válida com o padrão ético de respeito aos interesses autônomos de um ser senciente. O problema é que este exemplo, embora brandido com ares de seriedade, é meramente retórico. Ele não é mais um verdadeiro problema para a imensa maioria dos seres humanos.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Prestemos atenção nos valores ditos universais de todos esses exemplos: a civilização, a fé (cristã) ou sua ausência (ateísmo), o liberalismo (político e econômico) e o capitalismo, a igualdade socialista são todos valores culturais – ou seja, limitados no espaço e no tempo. Não estão fundados sobre experiências sociais, políticas, espirituais, econômicas universais. Logo, não são eles mesmos universais. Nesses casos é plenamente cabível a crítica relativista. Entretanto, os veganos se assentam sobre uma questão indiscutivelmente universal em todo o mundo animal: a senciência. Aqui está a força do argumento vegano-abolicionista.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Na nossa vida cotidiana, para orientar nossa relação com nossos semelhantes – humanos e não-humanos – tudo o que precisamos é de critérios. O do veganismo é bem simples. Conjuga: não promover o sofrimento, respeitar a integridade e dignidade física e moral, a igualdade entre indivíduos e espécies animais, e a liberdade. É um critério lógico e coerente. Não estamos falando de algo que seja incompreensível para outras pessoas, e sim do território comum da racionalidade. Estes critérios são compreensíveis e alcançáveis para qualquer ser humano paradigmático. Pela racionalidade e pelo diálogo, podemos chegar a padrões comuns – universais – de respeito à dignidade do ser humano e do animal não-humano, e de harmonia com a natureza. A racionalidade aqui, entenda-se, é o instrumento para o reconhecimento de direitos e não o critério – um ser humano, se for racional, não irá negar a universalização de direitos morais que sejam comuns a todos os seres sencientes.

Bruno Müller, Veganismo e etnocentrismo [link]

Nossa sociedade ainda funciona sob um marco jurídico em que nem sempre a ética e política coincidem, de modo que, num embate entre ambos, sempre irá prevalecer aquilo que é legalmente justo, mesmo que seja eticamente condenável. Apenas quando o direito legal e o direito moral coincidirem plenamente os direitos animais – e os direitos humanos – serão efetivamente respeitados e promovidos.

Bruno Müller, Por que animais têm direitos [link]

Para os seres sencientes, a morte é um dano irreparável, pois significa a aniquilação de sua consciência e a cessação de todas as sensações e experiências que lhe produzem bem-estar. A perda da liberdade é um dano irreparável porque a liberdade é condição para viver de forma autônoma – logo, condição para a própria vida. Sem liberdade, o ser senciente está vulnerável, pois está limitado na sua capacidade de buscar sua sobrevivência e proteger-se daquilo ameaça sua vida. Torna-se dependente de outros indivíduos para manter-se vivo, e torna-se incapaz de buscar o que lhe proporciona bem-estar. A violação da integridade física ou psíquica é um dano irreparável porque representa, além do risco de perder a vida, um sofrimento inestimável. Sem liberdade e sem integridade física e psíquica, a vida do ser senciente, se não estiver encerrada, será uma vida limitada, e portanto fonte de sofrimento.

Bruno Müller, Por que animais têm direitos [link]

Não queremos que animais não-humanos tenham direito ao voto, ou à educação, pois estes não fariam nenhum sentido para eles. Os direitos fundamentais que queremos estender para todos os animais foram aqueles consagrados como os direitos humanos de primeira geração – os direitos à vida, à liberdade e à integridade física e psíquica. Nós defendemos que esses direitos não são exclusivamente humanos. São direitos animais. Os direitos animais são assim chamados porque são direitos morais que são relevantes não apenas para seres humanos, mas para todos os animais. Isso porque são direitos que se referem a interesses básicos, resultantes da própria manifestação da natureza do indivíduo – pois, em condições ideais, todos os seres sencientes nascem livres e só sobrevivem se estiverem física e psiquicamente íntegros.

Bruno Müller, Por que animais têm direitos [link]

Os defensores dos animais precisam superar os preconceitos e a ingenuidade que os afastam das questões mais amplas sobre a qual a exploração animal está apoiada. O movimento pelos direitos animais interfere diretamente sobre as concepções ideológicas e as estruturas de poder da sociedade e, portanto, recusar-se a essa reflexão mais ampla irá comprometer seriamente o alcance de nossa luta. E, sendo a sociedade em que vivemos regida pelas relações capitalistas, precisamos de uma compreensão profunda do funcionamento e dos pressupostos ideológicos do capitalismo para atuarmos de forma mais efetiva em favor da transformação dessa realidade e a promoção dos direitos animais.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo [link]

A exploração animal é uma das instituições mais antigas da humanidade, muito anterior ao capitalismo. Ela data de aproximadamente 10 mil anos, época da domesticação dos primeiros animais, que é também a data aproximada do surgimento da agricultura e, consequentemente, a propriedade privada. Isso quer dizer que os animais estão entre os primeiros seres explorados e oprimidos pelos seres humanos. Justamente por sua ancestralidade, combater a exploração animal é uma luta tão inglória.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo [link]

O antropocentrismo é, sem sombra de dúvida, a ideologia mais universalmente difundida, hegemônica e socialmente aceita pelos seres humanos. Atravessa culturas, classes sociais, escolaridade, gerações, gênero, ideologias políticas e assim por diante.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo [link]

Para os seres humanos, o uso de animais está justificado não apenas pela necessidade ou pela produtividade. É percebido também como um direito, fundado sobre a tradição e sobre sua complacente autoimagem como ser “superior”. Em outras palavras, é uma ideologia que possui uma dimensão tanto prática quanto metafísica que, no último caso, repousa quer sobre o direito divino (“Deus pôs os animais na Terra para nos servir”, como muitos dizem), quer sobre o direito natural (“É natural que seja assim”, “Somos superiores”, “Temos direito de usufruir de tudo que a natureza oferece para o nosso bem-estar”, “Se os animais pudessem, fariam o mesmo”). Desse modo, sua fundamentação numa metafísica e numa superioridade presumida, resultando na redução dos animais não-humanos à condição de propriedade está muito próxima da ideologia da servidão e do escravismo.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo [link]

O capitalismo não inventou a exploração animal, mas elevou a exploração, de um modo geral, à condição de forma básica de interação entre indivíduos e interação com a natureza, e naturaliza e justifica a exploração como uma forma de relação “racional” e “moral”, colocando-a como a forma básica de relação social, uma vez que a vida passa a se organizar em função das relações de troca. Fundado sobre a racionalidade do mercado – que comanda apenas a maximização dos lucros – a exploração animal atingiu uma dimensão nunca antes vista.

Se nosso sistema de crenças reduz todos os seres e interações à condição de objeto e mercadoria, não há a possibilidade de um único elemento escapar da equação. Especialmente um com raízes tão primordiais, fincado sobre uma das mais antigas, poderosas e universais das ideologias humanas, o antropocentrismo. Não parece provável, portanto, que seja justamente a verdadeira liberdade dos animais não-humanos e a abolição de todo e qualquer uso dos mesmos que poderá ser revista e abandonada dentro desse sistema social.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo [link]

A razão prática do capitalismo está, na verdade, frontalmente oposta à ética dos direitos de um modo geral; logo, também oposta aos direitos animais e o abolicionismo. Como supor que é possível a consagração dos direitos animais dentro de um contexto social, político e econômico que enxerga os indivíduos (humanos e não-humanos) como meios para o fim da geração de riqueza (e maximização do lucro)? Podemos, realisticamente, defender (como acreditam alguns ativistas veganos) que é possível manter essa organização social mercantilizadora, excluindo apenas os animais não-humanos da equação?

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo [link]

A objetificação dos animais atingiu o seu ápice e encaixou-se perfeitamente na lógica capitalista. Nesse sistema, eles foram definitivamente reduzidos à condição de máquinas produtoras de carne, leite, ovos, lã, couro, mel. Tratados como máquinas, manejados como máquinas, e produzidos em escala industrial: manipulados para maximizar ao máximo sua produtividade, empilhados no menor espaço possível, produzindo na sua capacidade máxima, descartados no instante em que se tornam improdutivos, e tendo seus resíduos aproveitados e reciclados ao máximo para incrementar os lucros. A racionalidade econômica e industrial por trás da criação intensiva de animais é irresistível para o capitalista e está em perfeito acordo e sintonia com os princípios do capitalismo. O capitalismo não inventou a exploração animal, mas a levou ao seu “estado da arte”, ou seja, sua forma mais pura, mais perfeita e mais radical. Portanto, ela não pode ser confrontada dentro da própria lógica do sistema – ela só poderá ser superada por um esforço externo que necessariamente confronte e rompa com essa lógica.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo [link]

Fundamentalmente, o maior erro da filosofia ética marxista é a confusão conceitual entre moral e ética. É necessário distinguir entre a moral, que é de fato uma construção histórica e social, e a ética, constituída por princípios básicos universais (ou universalizáveis) que obedecem a necessidades comuns a todas as sociedades e a interesses comuns de todos os seres humanos (e, como bem sabemos, de todos os animais, humanos ou não). O respeito que devemos a esses interesses fundamentais comuns a todos os animais constitui aquilo que chamamos de “direito moral”. Mesmo que esses direitos não sejam ainda universalmente reconhecidos e aplicados, isso não desmente a validade da ética nem confirma a tese de que só existe uma moral relativa.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

Embora a ética como ramo da filosofia seja igualmente objeto de disputa e controvérsia, e o reconhecimento dos direitos morais dependa, em última instância, da política e da sua aceitação social, os direitos morais básicos, quais sejam, o interesse fundamental dos seres humanos e demais animais à vida, liberdade e integridade, são fatos perfeitamente verificáveis e universais.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

A ética do trabalho e a objetificação dos seres e interações estão umbilicalmente vinculados. É o industrialismo que reduz tudo à condição de objeto. O ser humano não vale por si mesmo, mas pelo que pode produzir. Da mesma forma, a natureza nada mais é que um elemento a ser dominado e um recurso a ser explorado. Os animais, por sua vez, são meras máquinas a ser usados por sua potência ou os “produtos” que fabricam. O “fetiche da mercadoria” de que fala Marx não é um atributo exclusivo do capitalismo. O industrialismo retira do ser humano o seu valor intrínseco e o reduz igualmente à condição de máquina, cuja existência só é justificável na medida em que gera algo de “produtivo” para a sociedade – no sentido material do termo.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

Os animais não precisam “justificar” sua existência. Mas se isso é exigido do ser humano, como podemos imaginar de modo realista que animais, que nem são concebidos como indivíduos, sejam respeitados como “fins em si mesmos”, e não como meros meios para um fim?

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

É simplesmente lógico que os animais, na visão de mundo industrialista, não tenham valor senão pela “função” que cumprem, servindo à sociedade ou ao equilíbrio natural. Mesmo as tendências hegemônicas do ambientalismo não atribuem valor inerente aos animais ou à natureza, mas apenas valor de uso. A natureza só deve ser preservada porque isso é pré-condição para a sobrevivência humana e a manutenção dos “recursos” que dela extraímos para manter nossa sociedade; os animais apenas têm valor pelo papel que desempenham no equilíbrio natural, e suas vidas individuais podem – e devem – ser sacrificadas em favor da manutenção desse mesmo equilíbrio. É por isso (dentre outros fatores) que a maioria dos ambientalistas não reconhece os direitos animais como parte de sua causa – e sequer podemos acusá-los de incoerência por isso! Não à toa, Tom Regan define muito apropriadamente essa concepção de ambientalismo como “fascismo ecológico”.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

O maior entrave para o reconhecimento dos direitos animais é antes ideológico, não econômico. Hoje, além de nos confrontarmos com um antropocentrismo imemorial, temos de lutar igualmente contra a objetificação e mercantilização que são inseparáveis do capitalismo. A lógica desse sistema me parece muito mais compatível com as reformas bem-estaristas que a revolução que significaria a abolição do uso de animais. Pode-se supor que a humanidade um dia atinja um consenso mínimo sobre o respeito aos direitos animais, da mesma forma que hoje a idéia dos direitos humanos é cada vez mais amplamente aceita, mesmo que o sistema capitalista ainda predomine. Porém, e aqui está a questão chave, também da mesma forma que os direitos humanos, a garantia e proteção dos direitos animais tanto será pressionada e burlada pela busca capitalista do lucro, como supõe necessariamente a imposição de um limite ético que o capitalismo de hoje não possui. Desse modo, mesmo que não assuma uma forma diretamente anticapitalista, a luta pelos direitos animais necessariamente avança princípios que são opostos à racionalidade capitalista e contribuem para sua crítica.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

Deve assumir o ativismo pelos direitos animais um matiz declaradamente anticapitalista? Essa é uma questão delicada porque, para início de conversa, a grande maioria dos vegetarianos é desprovida de consciência política. Muitos deles chegam ao ativismo pela compaixão e até pela religião, sem qualquer formação ou reflexão política na sua trajetória de vida. Além disso, há ativistas que não aceitam essa conexão entre direitos animais e luta política contra o capitalismo. Nesse contexto, um ativismo justaposto pode alienar possíveis companheiros de ativismo e reduzir o público passível de ser sensibilizado e convencido da validade de nossa causa. Inversamente, essa combinação não criaria, necessariamente, um diálogo fecundo e potencial cooperação com ativistas políticos “tradicionais”, ainda presos aos padrões ideológicos do antropocentrismo e do industrialismo. O ativismo vegano e anticapitalista correria então o risco de tornar-se um gueto sem grande ressonância na sociedade. Em todo pequeno universo que é cada indivíduo humano, é possível ver todo tipo de construção mental. O ser humano não é linear, na verdade muito poucas pessoas se preocupam com ou mesmo prezam a coerência, e mesmo aqueles que a procuram, por enxergar o mundo sob diferentes pontos de vista, terão uma visão diferente do que é uma filosofia de vida coerente. Assim, não existe uma associação óbvia e necessária, na mente humana, entre as duas causas – emancipação humana e animal. Por isso, nosso movimento deve estar aberto à cooperação de todos aqueles que nele acreditam. Combinar as duas lutas é possível e válido, mas não obrigatório, na minha opinião. Pelo menos não no momento atual de consolidação do movimento pelos direitos animais.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

Duas coisas, porém, me parecem certas: primeiro, a alienação política não pode mais dar o tom do ativismo pelos direitos animais. Ela limita nossa capacidade de interferir numa sociedade que mal compreendemos. Queiramos ou não, gostemos ou não, nossa luta confronta diretamente interesses materiais e ideologias fortemente arraigadas na sociedade. A transformação que queremos exige uma profunda crítica e reorganização da sociedade e, nesse sentido, mesmo que brandida por pessoas “apolíticas” ou conservadoras, a nossa causa é inevitavelmente uma causa política. Tomar consciência disso e abrirmos nossos olhos para uma realidade mais ampla que nos escapa, em vez de nos alienarmos numa luta desconectada da sociedade e dos conflitos que nela existem – como se eles não interferissem nas relações que pretendemos mudar de forma tão radical – é o primeiro passo para atuarmos de forma mais efetiva.

Em segundo lugar, a aquisição dessa consciência política que hoje falta aos defensores dos animais fatalmente induzirá à adoção de uma postura mais crítica em relação à nossa sociedade atual, tanto pela percepção de que os princípios que a regem são incompatíveis com os direitos animais, quanto pelo reconhecimento de que os animais não são as únicas vítimas da injustiça e opressão que estão no coração dessa sociedade.

Assim sendo, se queremos libertar os animais da opressão humana, devemos entendê-la como apenas uma faceta de uma realidade mais ampla de opressão generalizada do mais forte sobre o mais fraco. Uma opressão em cadeia, com diversos pontos intermediários entre o mais forte de todos e o mais fraco de todos – estando o animal não-humano na escala mais baixa dessa cadeia. Sem a consagração do princípio da liberdade em todas essas escalas, a libertação animal corre o risco de se tornar uma quimera – da mesma forma que a liberdade humana, legalmente proclamada, mas amplamente violada e negada a parcela nada desprezível da humanidade.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

As lutas por emancipação humana e emancipação animal estão política e filosoficamente relacionadas. Direitos animais e direitos humanos, abolição da exploração animal e abolição da exploração humana: mesmo que tenham pontos de partida distintos, coincidem no ponto de chegada. Portanto, não são outra coisa senão ramos de uma mesma causa.

Bruno Müller, Direitos animais em tempos de capitalismo (parte 2) [link]

O ser humano gosta de justificar sua dominação por meio de uma suposta superioridade. Em primeiro lugar, não há superioridade na natureza: cada espécie se basta, tem sua própria função e a ela está adaptada, todas têm um papel no equilíbrio ecológico e existem para seus próprios interesses.

Bruno Müller, Por que abolicionismo [link]

Muitos animais são dotados de memória prodigiosa, e são capazes de solucionar problemas e interpretar situações. É um mecanismo básico da sobrevivência de qualquer animal: se você sobrevive a uma situação de perigo, você a irá evitar no futuro, para preservar-se. Se você vive uma situação prazerosa, você irá querer revivê-la.

Bruno Müller, Por que abolicionismo [link]

As diferenças entre seres humanos e animais não-humanos são quantitativas, de grau, e não qualitativas, de tipo.

Bruno Müller, Por que abolicionismo [link]

Afirmar que as diferenças de habilidades entre seres humanos e outros animais implica superioridade é tão absurdo quanto afirmar que pássaros, morcegos, insetos são superiores ao ser humano por serem capazes de voar sem precisar construir artefatos para isso. A única razão pela qual a habilidade de voar não é um argumento razoável para diferenciar “superiores” e “inferiores” é porque o ser humano não voa. Assim sendo, temos que voltar à afirmação de Charles Darwin: as diferenças entre o ser humano e os demais animais são de grau, não de tipo. Podemos ter algumas habilidades mais desenvolvidas que eles – assim como eles, outras habilidades mais desenvolvidas do que nós. Disse não se pode inferir, racionalmente, que uma espécie qualquer seja superior à outra.

Bruno Müller, Por que abolicionismo [link]

É imoral reduzir um ser senciente, que tem sua própria individualidade, à condição de objeto, aprisionando-o e dispondo de sua vida. Simples assim.

Bruno Müller, Por que abolicionismo [link]

Ora, somos humanos, e nos preocupamos mais com outros seres humanos que com outros animais. Isso é compreensível. Nós nos preocupamos mais com outros humanos, assim como nos preocupamos mais com nossos amigos que com estranhos. Assim, também, como nos preocupamos mais com nós mesmos que com nossos amigos. Isso, entretanto, não é justificativa para aprisionar, torturar e matar animais, estranhos ou amigos. Do ponto de vista da ética, não importa nossos sentimentos por nossas vítimas, e sim o sofrimento que podemos lhes causar. Se e esse sofrimento é evitável, ele se torna moralmente errado.

Bruno Müller, Por que abolicionismo [link]

Na escala da opressão, os animais não-humanos ocupam o último degrau. É na exploração animal que a quase totalidade da humanidade, opressores e oprimidos, se igualam, se irmanam. Embora, como propriedade que são, os animais não-humanos sejam mais “acessíveis” aos poderosos do mundo[1], o fato é que quase todos os grupos sociais praticam a exploração animal ou, em alguma medida, se beneficiam dela. A exploração animal, dominação humana sobre outros animais, é talvez a ideologia mais difundida e mais amplamente aceita do mundo. Quase todos aceitam-na não apenas como natural e desejável, mas igualmente como justa e correta.

Bruno Müller, As camadas da opressão [link]

Os animais não-humanos são os maiores explorados da terra. São considerados menos que os escravos ou os trabalhadores remunerados; seus direitos são nulos. Eles estão em último lugar na escala, também, porque eles são o único grupo oprimido que não pode se levantar contra seus opressores. Isso torna o nosso papel, como defensores dos direitos animais, ainda mais importante. E nossa responsabilidade, ainda maior. Claro, numa ironia final, nós, humanos, sempre podemos alegar que, se pudesse, a vaca faria o mesmo conosco. E isso ainda nos faz sentir superiores a ela – nós temos o poder de subjugá-la, ela não; nós triunfamos – reinamos – sobre todos os outros animais. Sem perceber, com esta posição, estamos chancelando a ideia de que aquele que pode explorar, escravizar, submeter, matar, é um ser superior. E, se não o fizer, é um tolo. Evidenciando portanto que, por mais que não reconheçamos isso publicamente, nossa sede de poder nos torna uma espécie que não é apenas predisposta à violência, mas glorifica-a.

Bruno Müller, As camadas da opressão [link]

Nosso comportamento com os animais não-humanos ratifica tudo o que fazemos entre nós mesmos. Se está correta a moral que aplicamos a todo o reino animal, então a ética comanda que sejamos brutais e vis entre nós mesmos – e que não há nada de injusto e imoral nisso. E é justamente por isso que nenhum ser humano que se levanta contra as injustiças provocadas contra outros seres humanos jamais poderá se mostrar indiferente ao sofrimento, à exploração, à objetificação dos animais não-humanos sem se mostrar portador de uma filosofia ética e política míope – e, em última instância, portardor de uma atitude incoerente e hipócrita.

Bruno Müller, As camadas da opressão [link]

A injustiça, a opressão, a dominação humanas, sejam seus alvos outros seres humanos ou animais não-humanos, não podem ser vistas como simples fenômenos da natureza. Elas são construções sociais que podem – e devem – ser abolidas.

Bruno Müller, As camadas da opressão [link]

A tática de trazer pessoas ao vegetarianismo por motivos alheios aos direitos animais é muito comum. No nosso país foi, na verdade, por muito tempo, predominante. Alguns os fazem por não serem, de fato, vegetarianos éticos. Outros porém, adotam, de modo irrefletido, uma postura de que vale tudo para convencer as pessoas a se tornarem veganas/vegetarianas. Não se dão conta do quanto essa atitude pode ser prejudicial à sua própria causa, contribuindo para o seu descrédito em função de informações falsas, incompletas ou parciais que são assim veiculadas.

Bruno Müller, Limites éticos e práticos dos discursos transversais na defesa do veganismo [link]

Se o veganismo/vegetarianismo se funda sobre argumentos frágeis, está mais propenso a sucumbir, mesmo que os contraargumentos também sejam frágeis – e em geral o são.

Bruno Müller, Limites éticos e práticos dos discursos transversais na defesa do veganismo [link]

É muito comum que Vegetarianos “pela saúde” ou “pelo meio ambiente” ou “espiritualistas”, por não serem vegetarianos éticos, não seguirem à risca essa dieta. É comum ouvir deles que “não devemos ser radicais”, e assim eles se permitirem a ingestão ocasional de produtos de origem animal – ou seja, não são vegetarianos de fato.

Bruno Müller, Limites éticos e práticos dos discursos transversais na defesa do veganismo [link]

A ética deve ser sempre o fio condutor das nossas conversas sobre veganismo. O que quer dizer que o veganismo/vegetarianismo deve estar apoiado sobre a filosofia dos direitos animais. Veganismo são os direitos animais na prática, nunca podemos nos esquecer disso. Com algum tempo de experiência no ativismo pelos animais, posso garantir que consegui muito mais adeptos com o meu discurso ético, do que em anos tentando disfarçar minha preocupação central pelo medo de não ser ouvido ou aceito. Uma vez que a pessoa rompeu com o padrão antropocêntrico, o retorno é muito mais difícil, bem menos provável. O caminho ético pode ser o mais tortuoso, o menos popular, mas é também o mais bem fundamentado, o mais coerente – e, portanto, o mais duradouro.

Bruno Müller, Limites éticos e práticos dos discursos transversais na defesa do veganismo [link]

Tenho insistido na necessidade de os ativistas veganos abandonarem o espontaneísmo e adotarem uma postura mais responsável do ponto de vista profissional e intelectual. Não é porque o ativismo é voluntário que ele pode ser feito com desleixo. Não é porque você tem convicção das suas idéias que não tem o dever de desenvolvê-las filosoficamente para credenciar-se para o debate. Isto é, se queremos realmente que nossas ações em prol dos direitos animais tenham impacto na sociedade, seja na escala micro, das relações pessoais, seja na escala macro, de interferir nos processos de exploração animal.

Bruno Müller, Alianças e estratégias: equívocos presentes, caminhos futuros [link]

Duas coisas são fatais na luta pelos direitos animais: um vegano sem argumentos e sem saúde.

Bruno Müller, Alianças e estratégias: equívocos presentes, caminhos futuros [link]

A ignorância militante (ou displicência irresponsável) é muito difícil de ser superada. Já ouvi vários tipos de bobagens e irresponsabilidades de veganos.

Bruno Müller, Alianças e estratégias: equívocos presentes, caminhos futuros [link]

A melhor forma de fazer com que o conjunto e o individual caminhem juntos é fomentar o talento natural dos ativistas, em vez de deliberar tarefas a esmo. Cada militante precisa encontrar seu lugar específico; desse modo, estará fazendo algo prazeroso para si, consequentemente produzindo um trabalho mais eficiente e contribuindo para a causa como um todo.

Bruno Müller, Alianças e estratégias: equívocos presentes, caminhos futuros [link]

Cabe-nos desenvolver estratégias eficientes para levar o veganismo abolicionista ao conjunto das nossas comunidades. Não estratégias que escondam nossas ideias ou enganem o público – como são os discursos transversais e aliancistas. O que nós precisamos é de uma estratégia que seja eficiente e coerente com os nossos propósitos. E este último é o ponto em que milhares de movimentos políticos e sociais – como o nosso – falharam no passado. Ao comprometer suas ideias e princípios, sua coerência, em nome do crescimento, tornaram-se uma sombra do que outrora foram e sacrificaram o fim – a emancipação – em favor do meio – o poder. Devemos aprender com estas lições do passado: não sucumbir à sedução do poder, nem à ilusão de que o poder acelera o árduo e longo processo da emancipação social. Ao contrário, seu canto da sereia afoga os ideais de libertação sob o oceano de dominação do qual é constituído.

Bruno Müller, Alianças e estratégias: equívocos presentes, caminhos futuros [link]

O especista passeia por teorias que se contradizem, ou circulam em torno de si mesmas, sem jamais resolver o impasse. Não importa. Contanto que suas certezas e conveniências continuem intactas. As conclusões já estão dadas – o argumento não importa. Essa é a razão servil: aquela que foge do esclarecimento, como dizia Kant, e prefere continuar na menoridade – o estágio em que a razão autônoma e crítica não é acessada.

Contra a razão servil, o veganismo nos convida ao exercício da autonomia crítica, do questionamento das verdades preestabelecidas, da recusa em aceitar a violência e injustiça como naturais e inevitáveis. É um processo de emancipação, de inconformidade, de abandono das fórmulas e preceitos da racionalidade vulgar e mecânica. Não admira, então, que a prática do veganismo leve muitos de seus adeptos a ampliar seus horizontes, a rejeitar e desafiar todas as formas de opressão, opondo-lhe um modo de vida pautado na ética, na justiça e no respeito.

Bruno Müller, Humanidade e servidão: uma história de amor [link]

Em resumo, a senciência animal implica que suas vidas têm valor inerente, isto é, são seres autônomos cuja existência é um fim em si mesmo. É a senciência que evidencia a existência de seus interesses fundamentais e, por decorrência, nosso dever de respeitá-los.

Bruno Müller, Liberdade e bem-estar numa ética de direitos [link]

Eu não posso exigir de ninguém a minha felicidade, pois ninguém será capaz de me provê-la, nem tem este dever; mas posso exigir a minha liberdade, para dela dispor em busca da minha felicidade.

Bruno Müller, Liberdade e bem-estar numa ética de direitos [link]

O bem-estar em si não é um direito, e sim os elementos que asseguram ao animal a possibilidade de conseguir seu bem-estar. Quando violamos seus direitos fundamentais à vida, liberdade e integridade física e psíquica, estamos negando-lhes a autonomia para a busca de seu bem-estar, a busca da felicidade.

Bruno Müller, Liberdade e bem-estar numa ética de direitos [link]

A felicidade é importante e é nosso dever combater todas as formas de injustiça, desigualdade, e sofrimento. Entretanto, ela não pode ser entendida como o fim último da ética, mas como uma função da ética dos direitos, que é aquela que vem se impondo nas últimas décadas, e que se apoia sobre a garantia e proteção dos direitos fundamentais do indivíduo. Tal ética dos direitos é a ética dos direitos humanos e dos direitos animais. Ela implica, em vez de impor normas para a felicidade geral, individual e coletiva, respeitar os interesses fundamentais do indivíduo como meio de este buscar, de modo autônomo, sua felicidade, ao mesmo tempo respeitando os mesmos interesses fundamentais de seus semelhantes.

Bruno Müller, Liberdade e bem-estar numa ética de direitos [link]

Na base dos direitos animais situa-se o veganismo como princípio fundamental, premissa básica, ponto de partida para a consagração e o respeito dos direitos animais. E, dentre esses direitos, humanos e animais, a liberdade possui um papel-chave. É precisamente no extremo oposto da liberdade que encontramos a condição mais aviltante que podemos impor aos nossos semelhantes (humanos e animais): a escravidão, que é a transformação de um ser livre e autônomo em mero objeto. Isso por si só demonstra que a liberdade é, necessariamente, um princípio basilar da ética dos direitos. Retirar de um animal sua liberdade significa retirar-lhe sua dignidade, retirar-lhe sua própria condição de animal. Nós, animais, somos mais que apenas seres vivos: somos seres livres.

Bruno Müller, Liberdade e bem-estar numa ética de direitos [link]

Do ponto de vista prático, ninguém pode tocar no seu livre-arbítrio, nem outro homem, nem “Deus” (que é invenção do homem). Essa é a tese defendida por Ivan Karamazov, famoso personagem de Dostoievsky. Esse seu pensamento tem uma importância chave no desenrolar do romance Os Irmãos Karamazov. Tal ideia ficou consagrada no aforismo: “se Deus não existe, tudo é permitido”.

Tudo é permitido? De certa forma, sim. Afinal, o ser humano é capaz, materialmente, de fazer tudo aquilo que puder conceber e que não viole as leis físicas. Apenas pela razão (reflexão) ou força (física ou moral) se pode impedir um ser humano de fazer tudo aquilo que lhe aprouver. Simplesmente cabe a ele decidir o que fazer… Sempre foi assim, e sempre será.

Do ponto de vista moral, porém, o livre-arbítrio tem um limite claro, indiscutível, que é a liberdade e a integridade do próximo. Qualquer ato que viole isto é imoral, inaceitável, e justifica uma limitação do livre-arbítrio. Diferente do que pensava Dostoievsky, esse limite não vem de Deus, mas do próprio ser humano: da razão, da empatia e do impulso em preservar a sociedade e seus indivíduos.

O desafio que temos é estender esse aspecto moral para os demais animais: fazê-los serem reconhecidos como sujeitos portadores de direitos fundamentais à vida, à liberdade e à integridade (física e psíquica). Podemos fazer isso ao traduzir nossa moral (histórica e social) em princípios éticos universais.

Bruno Müller, Livre arbítrio de quem? [link]

Do ponto de vista prático, o livre-arbítrio de uma pessoa que consome animais é o mesmo do assassino ou do estuprador. O assassino ou o estuprador têm a plena liberdade, dentro de sua mente e de suas forças, para decididir se vão matar o estuprar – ninguém pode nem é capaz de manipular suas mentes e seus impulsos. Mas, do ponto de vista da moral, dentro de uma ética individual, e em defesa da sociedade, é errado atribuir ao assassino ou ao estuprador essa liberdade de ação. Se eles incorrem nela, devem ser punidos, e a sociedade deve buscar prevenir, pela educação e difusão de valores, tal choque de liberdades (algoz X vítima).

O mesmo vale para o não-vegano – a liberdade do algoz não pode se sobrepor à da vítima (ainda que esta seja de outra espécie). Se, porém, ocorre, em algum momento esse choque, devemos, como já disse anteriormente, preservar a liberdade da vítima, não do algoz. A exploração animal é uma liberdade tão legítima quanto a liberdade de assassinar seres humanos ou estuprar mulheres.

Bruno Müller, Livre arbítrio de quem? [link]

Somos animais, somente. Negar isso seria especismo. Negar nosso livre-arbítrio, também. Ocorre que nós também somos seres morais. Desenvolvemos princípios éticos a partir da razão, da empatia e das nossas necessidades de seres sociais. Essa característica, aliás, não nos é exclusiva. Basta observar outros animais sociais, como outros primatas, golfinhos e elefantes, e perceber que suas sociedades também vivem sob códigos morais.

É a moral que freia os impulsos irrefletidos do livre-arbítrio. A moral é uma construção social. Logo, na natureza, sim, tudo é permitido. Na sociedade, não. Por isso, devido a uma percepção limitada, o senso comum entende que a nossa moral só se refere a nós, humanos – nós a estendemos de forma muito limitada aos demais animais, apenas na medida de nossos interesses.

A ética, porém, é uma construção racional e, como tal, deve observar princípios universalizáveis – todos os seres que possuem as características relevantes para possuir um direito devem ter este direito respeitado. Como há muito argumentamos, essa característica, que nos obriga a respeitar os direitos humanos fundamentais à vida, liberdade e integridade, é a senciência e, sendo ela também uma característica dos demais animais, esses direitos – que não são direitos humanos, mas direitos animais – devem ser respeitados na universalidade de sua abrangência – todo o mundo animal.

Bruno Müller, Livre arbítrio de quem? [link]

Nós, veganos, devemos rejeitar qualquer discurso relativista que diga que o veganismo é uma questão de livre-arbítrio e opção individual. O veganismo é uma imposição ética.

Bruno Müller, Livre arbítrio de quem? [link]

Antes de ser ativista sempre tentei ser “fofinho”, e as pessoas se sentiam à vontade para comer carne na minha frente, não questionavam suas atitudes. Quando eu dizia algo, me chamavam de sentimental. Então, conheço os dois lados da questão. Se uma abordagem agressiva pode causar repulsa, uma abordagem simpática pode causar acomodação ou ridicularização.

Bruno Müller, em entrevista ao blog Planeta Vegetariano [link]

Informe-se e tome conhecimento. Sempre que sua consciência arrefecer, que pensar que é difícil demais largar aquela comida que você gosta, que pode comer carne de vez em quando ou se manter como ovo-lacto-vegetariano, leia um texto, veja um vídeo, converse com um vegano. Esse conhecimento irá fortalecer a convicção de que se está no caminho certo, o caminho da não-violência, do respeito à vida e à liberdade. Comer carne não é simplesmente uma questão de gosto, de cultura, de hábito. São gostos, culturas e hábitos nocivos, danosos a todo o planeta e injustos com os animais. Coisas que são consideradas atrozes hoje já foram vistas como normais, isso não quer dizer que elas devam prosseguir existindo. O tempo da exploração animal já deveria ter acabado há muito.

Bruno Müller, em entrevista ao blog Planeta Vegetariano [link]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s