Foi um clérigo, teólogo e escritor inglês. Lançou a primeira obra dedicada à defesa dos animais nomeada A Dissertation on the Duty of Mercy and the Sin of Cruelty against Brute Animals (Uma Dissertação Sobre o Dever de Compaixão: O Pecado da Crueldade Contra os Animais Brutos), em 1776, confrontando a moral vigente com a proposta da igualdade extra-espécie.

Sem os argumentos de Primatt, as teses defendidas por Jeremy Bentham, Henry Salt, Andrew Linzey, Richard D. Ryder e Tom Regan, bem como a ética de Peter Singer e a filosofia do direito animal de Gary L. Francione e de Steven M. Wise não teriam nascido e se expandido ao redor do planeta, com tamanho vigor. Trecho por Sônia T. Felipe em [link]


[…] o homem, entre todos os animais da terra, é o único sujeito digno de compaixão e piedade, por ser o mais bem dotado e distinto.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 15.

[sobre especismo] Desviados por esse preconceito, construído a nosso favor, ignoramos alguns animais,14 como se fossem meras excrescências da natureza, aquém de nossa atenção, e infinitamente não dignos de cuidado e reconhecimento divinos; outros, consideramos como se feitos apenas para nos prestar serviços; e, por poder usá-los, somos indiferentes e descuidados com relação à sua felicidade ou miséria, e com muita dificuldade nos permitimos supor que exista qualquer dever que nos obrigue em relação a eles.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 15.

[…] quando refletimos sobre as mais chocantes barbaridades, e vemos a fúria brutal exercida pelo homem mais vil, sem controle da lei, e sem atenção ou reprovação do púlpito, quase somos tentados a concluir que a crueldade não seja um pecado.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 26.

[…] preconcebe(m) nossa mente a considerar os animais como destituídos de sensibilidade e criaturas insignificantes, feitas apenas para nosso prazer e esporte.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 26.

Cada excelência num homem vem carregada de um dever do qual ele não pode ser eximido pela superioridade de sua posição. […] E onde a superioridade da posição e a excelência da natureza coincidem num mesmo sujeito (como é o caso, às vezes, mas não sempre, entre os homens), ali o dever requerido é maior, e a obrigação mais forte.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 29-30.

[sobre o costume com a tirania] essa afetação de complacência, esse gosto viciado e essa aversão à singularidade, pode nos levar a supor que nenhuma diversão pode ser cruel, se tiver a sanção da nobreza, e nenhum alimento pode ser não-abençoado, se servido à mesa de um homem ilustre, ainda que sua cozinha esteja coberta de sangue e tomada pelos gritos de seres agonizando em torturas.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 26-30. A citação em negrito refere o texto de Alexander Pope, publicado no Guardian, em 21 de maio de 1713, incorporada por outros defensores pioneiros dos animais, no início do século XVIII, Joseph Addison e Richard Steele, cf. nota de Richard D. Ryder, p. 27.

[…] Sofrer dor e miséria por parte do homem, simplesmente porque é um animal, isso ele não deve ter que. Sofrer dor, como uma punição, ele não pode, pois a punição é aplicável somente quando há demérito; e demérito, sendo algo de natureza moral, só pode ser atribuído a seres racionais, quando agem de um modo indigno à posição na qual Deus os colocou. Demérito, portanto, de acordo com nosso princípio mais caro, o de que apenas o homem é racional, é peculiar aos homens”, e ironiza: “nada é mais distinto do que desprezar ou abusar da parte inferior e irracional da criação; pois de modo algum revelamos nossa fraqueza, rebaixamos nosso orgulho, e agimos aquém da dignidade de nossa tão exaltada condição.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 33.

Você afirma que o animal não-humano é um animal destituído de razão; e a razão nos diz que submeter qualquer criatura à dor não merecida e desnecessária é injusto e irracional: portanto, o homem que é cruel é uma besta irracional na forma de homem.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 34.

[…] Superioridade na classe ou ranking não exime criatura alguma da sensibilidade à dor, nem resulta a inferioridade de posição em menos primorosa capacidade de sentir.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 21.

[…] Dor é dor, seja infligida ao homem ou ao animal; e a criatura que a sofre, seja homem ou animal, sendo sensível à desolação que ela produz, sofre um mal; e o sofrer um mal, imerecidamente, sem o ter provocado, quando não causou dano algum, e quando não pode pôr um fim a isso, mas simplesmente para que o poder e a malevolência sejam exibidos, é crueldade e injustiça naquele que o produz.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 21.

[…] se, na configuração animal não-humana, fôssemos constituídos pelo mesmo nível de racionalidade e capacidade de pensar de que gozamos; e outros seres, na configuração de humanos, nos atormentassem, abusassem e nos maltratassem barbaramente por não termos a sua forma; a injustiça e a crueldade de seu comportamento seriam autoevidentes. E, naturalmente, inferiríamos que – andemos sobre duas patas ou sobre quatro, seja nossa cabeça inclinada ou ereta, sejamos nus ou cobertos de pêlos, tenhamos caudas ou não, chifres ou não, orelhas longas ou curtas; relinchemos como um asno, falemos como um homem, chilreemos como um pássaro ou sejamos mudos como um peixe – a natureza jamais pretendeu que tais diferenças fundassem o direito à tirania e à opressão.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 24.

O animal é um ser não menos sensível à dor do que o homem. Ele tem nervos e órgãos da sensação similares; embora não possam falar com voz humana, para manifestar sua queixa, seus gritos e gemidos, no caso de impactos violentos sobre seus corpos, são indicadores tão fortes de sua sensibilidade à dor, quanto o são os gritos e gemidos de seres humanos cuja linguagem não compreendemos. Sendo a dor algo ao qual todos nós somos avessos, nossa própria sensibilidade à dor já nos deveria ter ensinado a compaixão por ela, nos outros, a aliviá-la sempre que possível, mas, jamais, a infligila brutalmente, imerecidamente. Do mesmo modo que as diferenças entre os homens não representam obstáculos às suas sensações, as diferenças na formatação de um animal em relação à de um homem não o exime do sentir; pelo menos não temos razão alguma para supor isso. […] E se a diferença na compleição ou na estatura não dá a um homem o direito de ridicularizar ou de abusar de outro homem, a diferença na configuração entre um homem e um animal não dá ao primeiro qualquer direito de abusar deste ou de o atormentar.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 23.

Para Primatt, nem o ser humano nem o animal podem reivindicar qualquer […] mérito intrínseco por serem o que são; pois, antes de serem criados, era impossível que qualquer um deles o merecesse; e, ao serem criados, sua configuração, perfeição, ou defeitos foram fixados invariavelmente, de sua constituição, não podem livrar-se. E sendo tais quais são, nem mais nem menos do que Deus os fez, não há mais demérito num animal, sendo animal, do que mérito num homem, sendo um homem; ou seja, não há mérito nem demérito em nenhum deles.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 22.

Embora seja verdade que um homem não é um cavalo, ainda assim, dado que um cavalo é um sujeito afetado pelo preceito, isto é, capaz de ser beneficiado por ele, o dever aí implicado alcança o homem, e equivale à regra: na condição de homem, trata teu cavalo como desejarias que teu dono te tratasse, se fosses tu um cavalo. Não vejo absurdo algum nem falso raciocínio nesse preceito, nem qualquer conseqüência negativa que possa resultar disso, ainda que a barbárie dos costumes assim o considere.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 25.

A racionalidade pode ser facilmente pervertida pelo homem, não apenas no trato de outros humanos em condições vulneráveis, mas especialmente no trato com outros animais, assim que o homem sente que pode perder seus privilégios: “Você afirma que o animal não-humano é um animal destituído de razão; e a razão nos diz que submeter qualquer criatura à dor não merecida e desnecessária é injusto e irracional: portanto, o homem que é cruel é uma besta irracional na forma de homem.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 34.

[…] há certos casos, na verdade, muitos casos, nos quais, por causa do medo de ofender, e do desejo de agradar e de nos auto beneficiarmos, levamos nossa complacência longe demais. Eu não ofenderia ninguém propositadamente, mas, no caso em questão, permanecer calado seria crueldade, e uma ofensa aos animais em defesa dos quais eu escrevo.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 43.

Quando a mente está assim tramada e disposta ao mal, um argumento claro encontrará resistência, e nós rebuscamos e atormentamos a natureza em suas partes mais frágeis, a fim de extorquir dela, se possível, a confissão sobre a qual possamos fundar algo com aparência de argumento para nos defender e desculpar de nossa crueldade e opressão.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 25-26.

No caso da crueldade humana, o homem oprimido tem uma língua, na qual pode defender sua própria causa, e um dedo para apontar o agressor: todos os que o escutam estremecem de horror e ao aplicarem o caso a si mesmos o consideram uma crueldade, em coro com a humanidade, e unanimemente se juntam para exigir a punição do agressor e o marcar com infâmias. Mas, no caso de crueldade brutal, o animal mudo não pode manifestar sua queixa aos de sua espécie nem descrever o autor dos danos: nem, caso fosse possível, têm eles o poder de desagravar e de vingá-lo.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 30.

Com relação aos animais, Primatt escreve: Todos estão sujeitos à morte; eles devem render-se a ela; e eles não aparecem a nós como tendo qualquer idéia ou medo da morte. Esquivar-se da dor, na verdade, é algo tão natural aos animais quanto aos homens, portanto, a dor é o único fundamento do medo nos animais. […] Para eles, a dor presente é o único mal, e a ventura (happiness) presente o único bem; logo, enquanto vivem, têm o direito à felicidade.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 35.

Primatt argumenta, com a mais franca ironia, contra a presunção de superioridade moral do homem: Tudo o que os homens têm a fazer em relação aos animais nocivos é ficar longe de seu caminho e prevenir-se contra seus ataques. Mas, em nosso país, não temos muito a temer. Não temos leões, tigres, nem lobos que nos possam molestar. Portanto, para nós, concluir que os homens podem ser cruéis com os animais em geral, porque alguns animais são por natureza ferozes e sangüinários, é o mesmo que dizer que a crueldade na Inglaterra não é pecado porque na Índia os tigres são selvagens.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 41.

Primatt questiona: Mas, é sua ferocidade e brutalidade o modelo padrão de nossa humanidade? E porque eles não têm compaixão, nós não temos que a ter? Porque eles têm pouca ou nenhuma razão, nós não a devemos ter? Ou, devemos nos tornar tão animais quanto eles?[…] Tanto são eles nossos mestres e tutores que apelamos a eles para argumentar e justificar com paliativos nossa desumanidade? […] Mas é surpreendente que os homens, que tanto apregoam a dignidade de sua natureza, a excelência elevada de seu entendimento e a imortalidade de sua alma […], devam, em defesa de sua conduta, desgraçar sua dignidade e entendimento, recorrendo a costumes próprios da parte mais baixa e declarada irracional da criação.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 41.

O homem, escreve Primatt, “[…] procura e persegue até mesmo o mais inofensivo dos animais com o propósito de o caçar e destruir. Nesse caso, parece que a compaixão prepondera do lado dos animais. Para uma única injúria que sofremos de animais, nós a retribuímos com mil outras, contra eles.

Humphry Primatt. The Duty of Mercy. Ed. by Richard D. Ryder. Fontwell; Sussex: Centaur Press, 1992, p. 37.


As citações acima foram organizadas por Sônia T. Felipe em Fundamentação ética dos direitos animais. O legado de Humphry Primatt [link]

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