É o critério da senciência, no fundo, antropocêntrico?

Um argumento comumente endereçado a favor do ecologismo (biocêntrico ou holista) é a acusação de que o critério da senciência seria, no fundo, antropocêntrico. Os proponentes do antropocentrismo escolhem uma característica que é típica da espécie humana (por exemplo, o modo de raciocinar) e atribuem estatura moral aos animais não-humanos de acordo com o grau de similaridade apresentada de acordo com a característica escolhida. Os proponentes do critério da senciência criticam essa atribuição de estatura moral de acordo com o grau de racionalidade. Porém, de acordo os proponentes do ecologismo, os defensores da senciência estariam a fazer exatamente o mesmo: percebem que a senciência é uma característica da espécie humana; e escolhem então considerar moralmente apenas aqueles seres que são sencientes. De acordo com essa crítica, em ambos os casos o padrão é o mesmo: só são considerados aqueles que apresentam alguma similaridade com humanos (só mudando, em cada caso, a característica que é escolhida como padrão de similaridade).

Há dois problemas graves com esse argumento. O primeiro, é que há diferença entre utilizar o modo de raciocinar e utilizar a senciência como critério de consideração moral (porque o primeiro não determina quem é passível de ser prejudicado e/ou beneficiado, e o segundo sim). O segundo, é que não é que os proponentes do critério da senciência primeiro postulam que humanos devem ser considerados, e depois procuram alguma similaridade com humanos naqueles animais que pretendem considerar também. Não estão a defender “devemos considerar os seres sencientes porque eles se parecem com humanos”, mas o contrário: “devemos considerar os humanos porque eles são sencientes”. A senciência, diferentemente de outros critérios (espécie, raça, gênero, grau de racionalidade, etc), não é um critério arbitrário, pois ela determina quem são os seres capazes de reconhecer determinados estados como positivos e/ou outros como negativos, e, portanto, determina quem é passível de ser prejudicado e beneficiado. Portanto, é falso que o critério da senciência seja, no fundo, antropocêntrico.


Texto Original: 

É o critério da senciência, no fundo, antropocêntrico?, Luciano Cunha, 14 de Maio de 2016

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