Trecho do livro Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?

Não. O racismo, o sexismo, o especismo e outras formas de discriminação são todos análogos, pois todos compartilham a noção errada de que alguma característica moralmente irrelevante (raça, sexo, espécie) pode ser usada para excluir seres que possuem interesses da comunidade moral, ou para subestimar interesses, numa explícita violação do princípio da igual consideração. Por exemplo, o especismo e a escravidão humana são semelhantes pois, em todos os casos, os animais e os humanos escravizados têm um interesse básico em não ser tratados como coisas, e ainda assim são tratados como coisas com base em critérios moralmente irrelevantes. Negar esse direito básico aos animais simplesmente porque eles são animais é como dizer que não deveríamos abolir a escravidão baseada na raça por causa da suposta inferioridade da raça dos escravos. O argumento usado para apoiar a escravidão e o argumento usado para apoiar a exploração animal são estruturalmente semelhantes: excluímos seres que possuem interesses da comunidade moral porque há alguma suposta diferença entre “eles” e “nós”, a qual não tem nada a ver com a inclusão desses seres na comunidade moral. A posição dos direitos animais sustenta que se acreditamos que os animais têm importância moral, o princípio da igual consideração requer que paremos de tratá-los como coisas.

Uma pergunta relacionada a essa, que surge frequentemente neste contexto, é se o especismo é “tão mau” quanto o racismo, o sexismo ou outras formas de discriminação. De um modo geral, não é útil estabelecer um ranking de males. O fato de Hitler matar judeus foi “pior” do que o fato de Hitler matar católicos ou então ciganos? A escravidão é “pior” do que o genocídio? A escravidão que não é baseada em raça é “pior” do que a escravidão baseada em raça? O sexismo é “pior” do que a escravidão e o genocídio, ou é “pior” do que a escravidão mas não é pior do que o genocídio? Francamente, eu nem sei ao certo o que essas perguntas significam, mas desconfio que as pessoas que as fazem supõem, implicitamente, que um grupo seja “melhor” do que outro. De qualquer modo, todas essas formas de discriminação são terríveis, e terríveis de diferentes maneiras. Mas todas têm uma coisa em comum: todas tratam os humanos como coisas sem interesses passíveis de proteção. Nesse sentido, todas essas formas de discriminação—por diferentes que sejam entre si—são semelhantes ao especismo, que resulta em tratarmos os animais como coisas.

Finalmente, há algumas pessoas que argumentam que, ao dizermos que alguns animais têm mais habilidade cognitiva do que alguns humanos, tais como os portadores de deficiência mental grave ou os extremamente senis, estamos igualando esses humanos aos animais e caracterizando-os de um modo desrespeitoso. De novo, não é esse o ponto da argumentação a favor dos direitos animais. Por séculos temos justificado o fato de tratarmos os animais como recursos porque, supostamente, eles não possuem alguma característica que nós possuímos. Mas alguns animais têm uma característica “especial” em um grau maior do que alguns de nós, e alguns humanos nem mesmo têm tal característica. O ponto essencial é que, embora uma característica em particular possa ser útil para alguns propósitos, a única característica exigida para a importância moral é a senciência. Nós não tratamos, nem deveríamos tratar, humanos deficientes como recursos de outros humanos. E se realmente acreditamos que os animais têm interesses moralmente significativos, então temos de aplicar o princípio da igual consideração e não tratá-los como recursos também. A argumentação a favor dos direitos animais não diminui o respeito pela vida humana; ao contrário, aumenta o respeito por todas as formas de vida.

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