Indústria da Carne e do Leite

Em auspicioso ensaio científico-filosófico tratando da dor em animais, o professor Bernard E. Rollin, que leciona Filosofia na Universidade do Colorado/EUA, chegou a uma conclusão desoladora: a imensa maioria das hipóteses de sofrimento animal provém da crueldade deliberada, que ocorre, via de regra, nas fazendas de criação, nos matadouros e nos procedimentos de vivissecção. Isso significa, a contrario sensu, que apenas pequena parte das situações de crueldade para com os animais acaba sendo coibida pela lei. Tal constatação, infelizmente, é verdadeira. Basta que se examine as estatísticas de diversos setores produtivos que se utilizam de animais, no campo ou na cidade. No setor do agronegócio, em solo brasileiro, diariamente milhares de animais são confinados, descornados, queimados, degolados, eletrocutados, escalpelados e retalhados para servir à indústria da carne. É comum, nas chamadas fazendas de criação, que a propriedade do bovino seja proclamada, a ferro quente, na pele do animal. Os cortes de cauda nas ovelhas, a extração dos dentes dos suínos, as debicagens nas galinhas e as castrações de bois e cavalos, tudo sem anestesia, constituem outras práticas inegavelmente cruéis, porém, toleradas pela lei. Isso sem falar no perverso sistema de confinamento, na dieta com hormônios para agilizar o processo de engorda e, por fim, depois de um indigno transporte aos matadouros ou abatedouros, quando os animais são amontoados nas carrocerias dos caminhões, rumo à derradeira agonia da morte anunciada. Tamanho morticídio acaba sendo justificado pela demanda alimentar carnívora, perfazendo-se por intermédio dos métodos oficiais de matança: pistola de concussão cerebral, eletronarcose e gás CO2. Estas opções, tidas como formas legítimas de abate humanitário, têm o respaldo da Organização Mundial da Saúde, a qual – diga-se de passagem – está imersa na ideologia científica dominante (tanto que a definição de dor aceita pela Sociedade Internacional para o Estudo da Dor parte do pressuposto que apenas os seres com linguagem articulada são capazes de senti-la). Evidente que, partindo dessa premissa antropocêntrica, ciência e ética caminham em direções opostas, o que torna as leis permissivas de comportamentos cruéis destituídas do necessário componente moral.

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Os pecuaristas industriais não se apercebem que, além de exercer uma atividade econômica pouco ética, perfazida à custa do sofrimento animal, eles também contribuem para a degradação do ambiente. Sabe-se, afinal, que a criação bovina requer muita água e espaço para pastagens. Segundo o jornalista Washington Novaes, fundamentado nas pesquisas do Worldwatch Institute, pelo menos 15 mil litros de água são necessários para produzir um quilo de carne, ao passo que um quilo de batatas pode ser produzido com até 500 litros. Afora a ampliação dos campos de pastagem, cada vez mais é ampliada a área destinada ao plantio dos grãos que sustentam o gado. Isso implica em queimadas, desmatamentos e perda da biodiversidade. Outro aspecto ecológico da questão diz respeito ao considerável aumento no consumo de carne pelas nações ricas, que já supera e muito a capacidade de recomposição do ambiente natural dos países produtores.

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Em síntese, toda a barbárie cometida diuturnamente contra os animais destinados ao consumo não acontece apenas pela pretensa necessidade de o homem comer carne, mas em razão dos vultosos interesses econômicos que movem a indústria pecuária. A ‘cultura do churrasco’ – mola propulsora da crueldade no agronegócio – tornou-se uma instituição nacional, apesar dos grandes latifúndios que, se utilizados no plantio de vegetais, poderiam aplacar o drama da fome nas classes sociais menos favorecidas. Priorizou-se, entretanto, o consumo de produtos de origem animal em vez dos de origem vegetal, como se a alimentação carnívora fosse imprescindível ao ser humano. Uma dieta vegetariana, rica em cálcio, ferro, proteínas e vitaminas – leguminosas, frutas e verduras – é capaz de suprir as necessidades nutricionais de qualquer pessoa, sem que seja preciso submeter os animais a tantos sofrimentos.

Crueldade consentida – Crítica à razão antropocêntrica (Ideologia e Alienação, pág. 183), Laerte Fernando Levai [link]

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